O Halloween ganhou espaço nas escolas, nas festas e nas ruas portuguesas. Mas, antes das abóboras e do «doçura ou travessura», as crianças já percorriam as localidades a pedir «Pão por Deus», uma tradição ligada ao Dia de Todos os Santos e à partilha entre vizinhos.
A noite de 31 de outubro é hoje marcada por disfarces, abóboras iluminadas, esqueletos e festas de Halloween. A celebração, que ganhou popularidade em Portugal nas últimas décadas, está cada vez mais presente nas escolas, nos espaços comerciais e nas iniciativas promovidas por municípios e associações.
Mas, antes de esta tradição se espalhar pelo país, já existia em Portugal um costume associado ao Dia de Todos os Santos: o Pão por Deus. Uma prática que fazia parte da memória de muitas comunidades e que continua a resistir em algumas localidades.
A crescente popularidade do Halloween levanta uma questão cultural: estaremos a deixar para trás tradições que, durante gerações, fizeram parte da identidade portuguesa?
As raízes antigas do Halloween
A origem do Halloween está associada ao Samhain, uma antiga celebração dos povos celtas, particularmente nas regiões da Irlanda e de outras zonas das Ilhas Britânicas.
Esta festividade assinalava o fim da época das colheitas e a chegada da parte mais escura e fria do ano. Segundo as crenças associadas à celebração, nessa noite a fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos tornava-se mais ténue.
As fogueiras e determinados rituais faziam parte dos costumes da época, estando ligados a crenças sobre o mundo sobrenatural e à proteção contra os espíritos.
Ao longo dos séculos, estas tradições foram-se cruzando com as celebrações cristãs e evoluindo até ao Halloween que conhecemos atualmente.
A ligação ao Dia de Todos os Santos
A própria palavra Halloween tem uma ligação ao calendário cristão. Deriva da expressão inglesa All Hallows’ Eve, que significa véspera de Todos os Santos.
O dia 1 de novembro é dedicado, na tradição católica, à celebração de Todos os Santos. Já o dia 2 de novembro é a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, data em que os cristãos recordam os familiares e amigos falecidos.
Apesar desta proximidade histórica, o Halloween não é uma celebração religiosa instituída pela Igreja Católica. A festa moderna reúne elementos de diferentes origens e é hoje vivida sobretudo como uma iniciativa popular e recreativa.
Pão por Deus: uma tradição portuguesa de partilha
Muito antes de o Halloween se popularizar em Portugal, já as crianças tinham o hábito de percorrer as ruas na manhã de 1 de novembro para pedir o tradicional Pão por Deus.
Em pequenos grupos, batiam às portas dos vizinhos e recitavam versos, recebendo em troca pão, broas, bolos, romãs, nozes, amêndoas e castanhas. Os alimentos eram guardados em pequenos sacos de pano, numa tradição que variava de região para região.
Em algumas localidades, o costume era conhecido como Dia dos Bolinhos ou assumia outras designações e formas de celebração.
A origem exata do Pão por Deus não está totalmente esclarecida, mas a tradição ficou associada à partilha de alimentos, à solidariedade entre vizinhos e à memória daqueles que já tinham morrido.
Era também uma forma de aproximar as comunidades e transmitir às crianças valores de entreajuda e convivência.
Como chegou o Halloween a Portugal?
Apesar das suas raízes europeias, o Halloween moderno ganhou grande projeção internacional através dos Estados Unidos.
Durante o século XIX, emigrantes irlandeses levaram consigo muitos dos costumes associados à celebração, que foram sendo adaptados e popularizados na sociedade norte-americana.
Com o desenvolvimento do cinema, da televisão, da publicidade e, mais recentemente, das redes sociais, o Halloween ultrapassou fronteiras e chegou a vários países, incluindo Portugal.
No nosso país, a celebração ganhou expressão sobretudo nas últimas décadas, passando a fazer parte das atividades escolares, das festas infantis e da programação de espaços comerciais, municípios e associações.
Estaremos a esquecer as nossas tradições?
A crescente popularidade do Halloween levanta uma questão sobre a preservação do património cultural português.
Não se trata de contestar a realização de festas ou de impedir que as crianças se divirtam com disfarces e brincadeiras. O importante é garantir que as tradições nacionais também continuam a ser transmitidas às novas gerações.
O Pão por Deus representa uma parte da memória coletiva portuguesa. Era uma tradição simples, mas com uma forte dimensão comunitária: as crianças conheciam os vizinhos, percorriam as ruas e partilhavam momentos com as pessoas da sua terra.
Em algumas localidades, a própria chegada do Halloween às escolas e às iniciativas comunitárias tem servido de oportunidade para recuperar ou dar visibilidade a costumes tradicionais portugueses.
Entre o «doçura ou travessura» e o «Pão por Deus» existem diferenças de origem e de costumes, mas não tem de existir uma escolha entre os dois.
As crianças podem continuar a celebrar o Halloween e, ao mesmo tempo, conhecer a história das tradições portuguesas e perceber o significado que tiveram para os seus pais, avós e bisavós.
Afinal, antes de as abóboras iluminadas e os disfarces assustadores chegarem às nossas ruas, já havia crianças portuguesas a bater às portas, com um saco na mão, para pedir: «Pão por Deus!»









