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António Bessone Basto: «Mudança para o Alto de Algés é fundamental para a sobrevivência do clube»

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ANTÓNIO BESSONE BASTO, presidente do Sport Algés e Dafundo e um dos atletas mais ecléticos da história do desporto em Portugal, abriu as portas do Estádio Náutico Rodrigo Bessone Basto para receber a reportagem do JORNAL DESPORTIVO. Neto de um dos fundadores do clube, o presidente do clube que é a casa de cerca de dois mil praticantes de várias modalidades pintou a entrevista em tons de emoção, sinceridade e confiança no futuro.

Bessone Basto falou do principal tema da vida do clube que festejou 109 anos no passado dia 19: a troca da baixa da Avenida dos Combatentes pelo Alto de Algés com o arranque das obras previsto para 2025. Além de olhar com assertividade o futuro algesino, Bessone recordou o mar revolto que foi ultrapassado de forma heróica depois das cheias de dezembro de 2022, muito graças ao determinante apoio da Câmara Municipal de Oeiras, às doações de gente anónima e ao amor ao clube de funcionários do centenário emblema. Aos 78 anos, Bessone Basto continua a mostrar uma jovialidade impressionante, não só no discurso como nas braçadas que têm como cenário as «suas» águas do Tejo.

– Comecemos pelo futuro. Em que ponto está a passagem das instalações do clube da Av. dos Combatentes para o Alto de Algés?

– Até ao fim do ano vão surgir ótimas novidades. A mudança para o Alto de Algés é fundamental para a sobrevivência do clube, estamos conscientes dessa necessidade. A Câmara de Oeiras tem sido fundamental em todo o processo e já está a trabalhar no projeto do novo Algés e Dafundo com grande profundidade e dedicação. O barco está em marcha e não pode parar.

– E qual é a reação dos associados a esta mudança?

– Apoiam, claro. Estamos há muitos anos na Av. dos Combatentes, somos um ícone da baixa de Algés. É uma zona muito central mas já não temos por onde crescer… estamos estrangulados. Seria um suicídio se continuássemos aqui mais tempo.

– Surgiram críticas à mudança?

– Poucas ou nenhumas, há sempre quem seja muito agarrado ao passado e que lhe custe a mudança mas o futuro é para a frente. Por exemplo, os pais vão ter espaço à vontade para estacionar os carros quando levam os miúdos ao clube, deixam de ter de andar às voltas para arrumar no centro de Algés. Mas há muitas outras vantagens em mudar a localização.

Samuel Oliveira, secretário geral do SAD, e António Bessone Basto exibem duas das muitas taças conquistadas pelo clube

 – E novidades? Podemos destapar algum dos pontos?

– Uma coisa é certa: não terá uma piscina de 50 metros, pois isso teria custo para o clube de quatro piscinas de 25 metros. Não vou fazer por vaidade uma piscina de 50 metros… temos de ter os pés assentes no chão. Um dia vou-me embora deste mundo e fica cá a malta danada comigo… vamos fazer, isso sim, uma piscina de 25 metros e pistas de 50 metros para treinar os nadadores para a competição…

– E mais?

– Vamos ter um tanque para os idosos, para as crianças aprenderem a nadar, para bebés… mas há muitas mais novidades…

E além da natação, quais as outras prioridades para 2025?

– Vamos ter dois pavilhões, mas também vamos ter o dobro do espaço que temos aqui na Av. dos Combatentes. Isto é o futuro do clube. O clube está velho, é um navio velho que não se afunda porque está encostado. Há muita coisa para ser feita e não tenho dúvida que o vamos fazer! Além da seção de natação, temos várias modalidades de pavilhão, como são os casos do judo, ginástica, basquetebol, vela, artes marciais, dança e fitness que merecem toda a nossa atenção. E vão tê-la! Garantidamente!

Piscina Fernando Sacadura recebe diariamente dezenas de nadadores

– O Algés e Dafundo é o terceiro clube português com maior representação em número de atletas olímpicos. O panorama é para manter?

– O nosso objetivo é esse mesmo! É imperioso que as instalações desportivas sejam melhoradas, temos de criar o nosso espaço e avançar rumo a um futuro risonho. A nossa judoca Taís Pina vai participar na edição de Paris-2024, é extraordinário! É a primeira judoca a representar Portugal nuns Jogos. Mas, reforço, o Algés e Dafundo, para voltar a ter vários atletas olímpicos, tem de se modernizar, melhorar as instalações que estão muito velhas. As modalidades estão amontoadas em cima umas das outras, torna-se difícil respirar. Aqui, à volta do clube, está tudo cheio e custa muito dinheiro. Temos de recorrer a espaços de outros clubes ou escolas, por exemplo, não é saudável. E garanto uma coisa, não é fácil gerir um clube, toda a gente sabe isso, mas temos toda a força do mundo para voltarmos a ter vários atletas em Jogos Olímpicos, somos o terceiro clube português com mais representantes em Jogos Olímpicos. É motivo de grande orgulho!

– Está umbilicalmente ligado ao Algés e Dafundo. Como aconteceu a sua entrada na presidência do clube?

– Foi a doutora Isabel Ribeiro, que durante uma homenagem que me fizeram aqui no Algés, que me pediu para dar uma ajuda ao clube… acabei por vir numa altura em que o Algés tinha muitos ordenados em atraso, estava com muitas dificuldades, senti que tinha chegado a minha hora de ajudar o clube. E acabei por vir… Arrependido? Nada disso, muito pelo contrário!

A ginástica é uma das principais modalidades do SAD

– Sente-se o presidente do Sport Algés e Dafundo?

– As pessoas muitas vezes põe as suas vaidades acima do clube mas eu não. Vejo um clube com 109 anos incrivelmente familiar. Quando me chamam de presidente não o sinto, parece que não estão a falar comigo, é a mais pura das verdades. O meu avô sim, esse sim, foi um grande presidente. Eu sou uma coisa muito pequenina, pode ser que um dia seja lembrado. Gostava de um dia realizar uma grande obra com o presidente Isaltino Morais, isso está muito próximo de acontecer. Sei que um dia vou fazer uma grande obra no clube. O Algés e Dafundo merece que se dê o passo que precisa. Amo este clube e lutarei sempre por ele!

– Em caso de desempate numa votação, e numa direção constituída por seis elementos, o voto do presidente vale a dobrar. Faz uso desse argumento?

– Não. Ninguém está acima do clube. Nesta direção, o voto do presidente conta como o dos outros elementos da direção. Temos que nos entender. O meu voto de presidente não desempata. Temos de encontrar consenso nem que seja preciso esperar horas…

«ENQUANTO AQUI ESTIVER NÃO HAVERÁ ORDENADOS EM ATRASO»

– Muito se fala do elevado custo de vida em Portugal e por essa Europa fora, de dificuldades financeiras. Como tem sido gerir essa questão no SAD?

– Uma coisa garanto, enquanto eu aqui estiver não pode haver ordenados em atraso. A minha bandeira é não roubar e não deixar roubar. E uma coisa importante, não se pode gastar dinheiro para conquistar títulos e depois não se pagar aos funcionários. Comigo isso não funciona, não pega! Passamos por situações em anteriores direções que nem havia dinheiro para bolo rei para funcionários. Impensável! Agora, as coisas estão bem diferentes.

«SE NÃO FOSSE ISALTINO MORAIS O CLUBE TINHA FECHADO»

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Bessone Bastos exibe a placa de agradecimento a Isaltino Morais pela forma como a câmara ajudou à recuperação do SAD

– Como recorda os dias 7 e 13 de dezembro de 2022, datas que ficaram marcadas por duas intempéries que quase arruiram o clube?

– Andámos aqui debaixo e água, foi horrível. Houve alturas em que me senti impotente, sem saber o que havia de fazer. Andei aqui pelo clube com a água pelo peito. Tive situações em que empregados do clube se agarraram a mim a chorar e eram pessoas que ganhavam abaixo do ordenado mínimo. Cheguei a pensar que estas pessoas têm mais amor ao clube do aquilo que eu tenho. Foram momentos que marcaram a minha vida até hoje. As instalações ficaram completamente alagadas e o material de apoio à manutenção às piscinas estragou-se. Os motores que bombeiam a água ficaram danificados, ficou tudo destruído, foi uma catástrofe difícil de resolver.

– Chorou?

– Bom, curiosamente, numa altura em que eu estava a chorar o presidente Isaltino Morais animou-me muito. Agarrou-me e disse-me que ia dar 250 mil euros ao Algés. O total do prejuízo chegou perto dos 500 mil euros, foi uma grande ajuda. E uma coisa não posso deixar de recordar e é bom que as pessoas saibam, é que se não fosse Isaltino Morais o Algés e Dafundo teria fechado em 2022.

Imagens da devastação provocada pelas cheias de Dezembro de 2022

– Qual a reação dos associados à tragédia algesina?

– Bom, o nosso trabalho de recuperação no SAD foi muito elogiado por muitos associados, sem dúvida, mas também recebi críticas de pessoas que não pagavam quotas há muito tempo, que passaram por aqui, não deixaram nada, só levaram, mas souberam saltaram em cima de mim. Diziam que eu estava a lamuriar-me, a pedir a instituições para sacar dinheiro ao clube. As pessoas esquecem-se de uma coisa, esta direção não tira nada, só põem. Aliás, estamos a por dinheiro até do nosso próprio bolso. Devo muito a este clube, foi o meu berço a minha rampa de lançamento, educou-me, aprendi a ter esta vontade de vencer. Antigamente no andebol eu atirava-me para o chão para defender remates, aqui também me atiro para o chão para defender o clube.